A marcha da insensatez NA MEDICINA DE EMERGÊNCIA BRASILEIRA

Carta endereçada as Instituições Médicas deste País: CFM, AMB, CNRM, Ministério da Saúde e a todos que trabalham nos serviços de emergência do Brasil.


Já em 1985, no Ceará, caracterizado por seu espirito pioneiro, foi fundada a primeira sociedade Médica destinada a contribuir para o desenvolvimento da Medicina de Emergência. Dr Henrique Mota, na época Superintendente do maior Hospital de Trauma do Ceará, funda a SOCEMU – Sociedade Cearense de Medicina de Urgência que funcionou por um tempo e caiu em hibernação. Somente em 1998, um grupo de Médicos – entre eles Dr. Lindemberg Lima, Dr. Celio Vidal, Dra. Itamarcia Araújo e Dr. Romel Araújo – realizamos de forma intensa a reanimação dessa Sociedade que passou a ser ativa realizando inúmeros fóruns e congressos. Formava-se no Ceará um grupo forte e apaixonado pela Emergência e que passaria a atuar em todas as suas vertentes. Por solicitação desse grupo o Conselho Regional de Medicina (CREMEC) cria a câmara técnica de Medicina de Emergência do Ceará. Hoje a SOCEMU é a regional da ABRAMEDE e continua atuando de forma importante para a consolidação da Medicina de Emergência.

No ano de 1984, Barbara W.Tuchman premiou o mundo com o livro "A marcha da insensatez" que, além de surpreendente, é admiravelmente bem escrito. Obra para ser lida e relida, dedicada aos que se interessam pelos caminhos da humanidade e procuram explicações para a insensata adoção, por muitos governantes, de políticas contrárias aos seus próprios interesses.

A autora oferece quatro episódios da história mundial como exemplo de momentos muito emblemáticos: (1) Os troianos puxam o misterioso cavalo de madeira para dentro dos muros de Tróia; (2) Os Papas da Renascença não captam a importância das vozes reformistas e não impedem a cisão protestante; (3) A arrogância dos lordes ingleses detona o processo de libertação da América do Norte; (4) Os americanos se atolam no Vietnã.

Como entender que, com poder de decisão política, alguns ajam, tão frequentemente, de forma contrária àquela apontada pela razão e pelos próprios interesses em jogo? Por que o processo mental dessas inteligências, também, tão frequentemente, parece não funcionar? A conclusão final oferecida ao leitor é que a principal causa da insensatez é a ambição do poder.

A ambição do poder é definida por Tácito como sendo a "mais flagrante de todas as paixões". Ela só se satisfaz quando exerce o poder sobre os demais seres humanos. Governar acaba sendo a melhor forma de exercer o poder sobre as pessoas.

Mas o que isso tem a ver com a Medicina de Emergência no BRASIL? Após refletir sobre a luta para o reconhecimento da Medicina de Emergência no Brasil, passo a me perguntar por que está sendo tão difícil esse reconhecimento? Por que, apesar de todas as evidências apresentadas, técnicas, científicas, sociais e financeiras, as nossas instituições insistem em ignorar esse problema ou quando o fazem, atuam de forma lenta e discreta.

Inúmeros debates já ocorreram em todo o Brasil e sempre com as mesmas conclusões: Medicina de Emergência como especialidade é importante para a medicina brasileira. A discussão, de tão repetitiva, já está ficando enfadonha e sem graça. Será que estão querendo vencer no cansaço? Como diz o dito popular: Por que será que mais de 60 países no mundo já tomaram essa iniciativa, entre elas as nações que comandam o conhecimento e a tecnologia mundial, como Estados Unidos, Inglaterra, Austrália, Nova Zelândia, França e outros enquanto nós ainda relutamos tanto? Estes países já apresentaram seus dados extremamente positivos com tal ação. Ficou claro que houve uma melhora substancial nos serviços de emergência, com benefícios para todo o sistema de saúde. A mortalidade de doenças agudas diminuiu; os processos éticos e jurídicos contra os profissionais reduziram de forma importante. Ganharam o médico, o sistema de saúde e, principalmente, o doente que passou a ser atendido de forma qualificada e humanizada. Os custos nos serviços foram equilibrados tornando estes mais eficazes e econômicos. A má prática passou a ser fato raro. Os novos profissionais, formados através do conceito do médico emergencista, realizam todos os procedimentos necessários à manutenção da vida de forma segura e correta. A especialização contribuiu para a prevenção e tratamento das doenças. Foi a única forma de o profissional se estabelecer no serviço e não utilizar o plantão apenas como um "bico" . Contribuiu para a diminuição da superlotação, já que o médico emergencista dá mais altas com segurança e interna apenas o necessário, além de solicitar exames de forma correta, ou seja, com indicação adequada. Nos países onde a Medicina de Emergência é uma especialidade, o profissional é bem conceituado e bem remunerado, diferente de nossa situação atual onde as condições de trabalho são desumanas e os salários são aviltantes. O profissional é humilhado, maltratado e dificilmente permanece muito tempo no setor. O caos nas emergências continua, enquanto fazemos reuniões e mais reuniões, discussões e mais discussões. A emergência continua com poucas perspectivas de mudanças. Não seria, senhores, uma INSENSATEZ de nossas instituições, permanecer discutindo o tema, sem efetivamente nada transformar? Voltando ao livro "A marcha da insensatez", será que ninguém desconfiava daquele cavalo enorme? Quantos cristãos denunciaram as indulgências e ninguém fez nada? Por mais que aconselhassem os americanos, eles entraram no Vietnam e todos viram o resultado. Pois, amigos, chegamos à conclusão que processo semelhante acontece hoje na medicina brasileira, apesar de todas as discussões, de todos os fóruns, de todas as evidências. Forças reacionárias, ameaçadas no seu poder, conseguem barrar o que já está mais que claro para a maioria dos profissionais. Pessoas que não trabalham na emergência, não conhecem a emergência e principalmente não vivem a emergência conseguem impedir sua estruturação. A quem interessa esse caos? A causa da insensatez, mais uma vez, é a paixão pelo poder, seja ele social ou financeiro. O mais triste é que essa insensatez é transformada em mortes todos os dias nos milhares serviços de emergência de todo o país. Essa insensatez é transformada em maus tratos, humilhações e preconceitos aos profissionais que se dedicam a esta área. A insensatez levará ao extermínio de um ideal que é legítimo, verdadeiro e necessário ao nosso sistema de saúde e à nossa população. De alento serve saber que não descansaremos e continuaremos a defender esta ideia, única que pode dar início ao processo de transformação de nossas emergências e colocá-las no patamar de importância que elas merecem. Não deixaremos que a insensatez comande nossas mentes e marcharemos sempre com o propósito de fazer o que é melhor para o paciente: começo, meio e fim de nossa profissão. Por isso conclamo as nossas instituições que busquem oferecer respostas aos médicos brasileiros, de forma mais breve e enfática. Porque Medicina de Emergência ainda não é uma especialidade neste País? Para concluir, repetiremos a frase cunhada por John Kennedy: "Os problemas do mundo não podem ser resolvidos por céticos ou por cínicos, cujos horizontes se limitam as realidades evidentes. Temos a necessidade de homens capazes de imaginar o que nunca existiu".

Eu, médico, trabalho na emergência 36 horas por semana como plantonista e 24h diárias como gestor.

Frederico Arnaud
Presidente da ABRAMEDE (2018-2019)