Seção - Conversando com o Especialista

Síndrome Burnout é um estado de exaustão emocional, física e mental causada por estresse excessivo e prolongado. Ocorre quando a pessoa se sente sobrecarregado, emocionalmente esgotado e incapaz de atender a demandas constantes. De acordo com uma pesquisa realizada pela International Stress Management Association (Isma-BR), em 2018, até 32% dos trabalhadores brasileiros sofrem de burnout. Isso representa até 33 milhões de pessoas. Dentre oito países elencados, incluindo China e EUA, o Brasil fica atrás apenas dos japoneses, que tem 70% de incidência da síndrome.

O Psicólogo Clínico e também escritor e palestrante, Rossandro Klinjey, esclarece de forma detalhada sobre essa síndrome que está ligada, diretamente, à vida profissional das pessoas.

Emergência Já - Rossandro, esse esgotamento físico e mental é algo da nossa geração ou já era sentido em outras épocas?

Rossandro Klinjey - É difícil lembrar quando começamos a ficar 'ocupados' o tempo todo. No entanto, enquanto assumimos mais trabalho e responsabilidades, trabalhamos mais horas e lidamos com níveis mais altos de estresse, nossa mente e nosso corpo pagam o preço. O esgotamento é a consequência do escolhermos ou nos ser imposta uma vida cheia de ocupações. Então podemos dizer que nossa época atual, a geração na qual vivemos, está mais suscetível a desenvolver síndrome de Burnout.

EJ - Quais seriam os fatores psicológicos que levam à síndrome? E como o trabalho contribui para isso?

RK - Mais do que o estresse do nosso trabalho diário, a síndrome de burnout tem sérias consequências na saúde física e mental. Quando nos sentimos exaustos, perdemos a sensação de sentido e propósito em nosso trabalho. O esgotamento parece ser causado por esforços desproporcionalmente altos (físico e emocional) e baixa satisfação (resultado negativo), além de condições de trabalho estressantes (altas demandas). A primeira coisa que você pode notar quando está esgotado é estar cansado o tempo todo. Dessa maneira, burnout e depressão compartilham muitos dos mesmos sintomas. De fato, se não for controlado, o esgotamento pode se transformar rapidamente em depressão crônica e começar a se infiltrar em todos os aspectos da sua vida.

EJ - Quais seriam as alternativas para que o ambiente e relações de trabalho se construíssem de forma menos danosa a saúde mental, principalmente em locais como hospitais, escolas, redações de jornal?

RK - Repense o seu trabalho. Se você tem um emprego que o deixa com pressa ou que é monótono e insatisfatório, a maneira mais eficaz de combater o esgotamento é sair e procurar um emprego que você goste. Obviamente, para muitos de nós, mudar de emprego ou carreira está longe de ser uma solução prática, especialmente em meio a uma crise econômica.

Então, tente encontrar algum valor no seu trabalho. Concentre-se nos aspectos do trabalho que você gosta, mesmo que apenas converse com seus colegas de trabalho no almoço. Mudar sua atitude em relação ao seu trabalho pode ajudá-lo a recuperar um senso de propósito e controle. Faça amigos no trabalho, pois isso ajudar a reduzir a monotonia e combater os efeitos do desgaste. Ter amigos para conversar e brincar durante o dia pode ajudar a aliviar o estresse de um trabalho insatisfatório ou exigente.

EJ - E em casa, o que pode ser melhorado para amenizar os danos da síndrome ou até mesmo evitá-la?

RK - Encontre equilíbrio em sua vida. Se você odeia seu trabalho, mas tem boletos para pagar, e por isso não pode sair, procure significado e satisfação em outro lugar da sua vida: em sua família especialmente. Concentre-se nas partes da sua vida que lhe trazem alegria, aumenta nossa resistência a suportar um trabalho excessivamente cansativo, ou nos dá força para um dia buscar um trabalho que tenha uma exigência justa e que sejamos capazes de atender.

EJ - Quais os sintomas do burnout? O que fazer quando o sentimento de exaustão chega?

RK - Burnout é um processo gradual. Isso não acontece da noite para o dia, mas pode surgir em você. Os sinais e sintomas são sutis a princípio, mas pioram com o passar do tempo. Pense nos primeiros sintomas como sinais de que algo está errado e precisa ser resolvido. Se você prestar atenção e reduzir ativamente o estresse, poderá evitar desenvolver a síndrome. Se você ignorá-los, acabará sendo vítima dela.

Entre os sintomas físicos temos: sentir-se cansado e esgotado na maioria das vezes; imunidade reduzida, doenças frequentes; dores de cabeça; frequentes ou dores musculares e mudança no apetite ou hábitos de sono. Os sintomas emocionais incluem: senso de fracasso e insegurança; sentir-se impotente, preso e derrotado; perda de motivação; menor satisfação e senso de realização. Os sintomas comportamentais são: isolar-se; procrastinar, demorar mais para fazer as coisas; ter comportamento compulsivo com alimentos, álcool ou drogas e ignorar o trabalho ou chegar atrasado e sair mais cedo.

O que fazer? Preste muita atenção aos estressores da sua vida (e reduza os desnecessários) A síndrome de Burnout vem de uma resposta prolongada a estressores crônicos. Quanto mais estressores você lida diariamente, maior o risco de burnout.

EJ - Qual a relevância de se falar sobre esse assunto agora, principalmente, com estudantes de medicina?

RK - A parte mais difícil de afastar a síndrome de burnout é que geralmente não vemos isso até que seja tarde demais. É por isso que é importante desenvolver nossa autoconsciência através da reflexão e revisões regulares de nossa vida e trabalho, daí a importância de falar sobre o tema.

A síndrome de Burnout é uma realidade nas profissões da saúde. Muitos estudos relatam uma exaustão crescente e alarmante entre médicos e residentes. Desse modo, quanto antes tomarmos consciência da síndrome e agirmos, mais será possível evitar ou minimizar que estudantes e residentes de medicina fiquem vulneráveis aos sintomas.

Longas horas de estudo, plantões e pouco sono, aumentam a pressão nos estudantes de medicina ainda estão sendo instruídos a continuar sua luta contra o desgaste. Pesquisas demonstraram que 50% dos estudantes de medicina apresentam sintomas de burnout, e que os estudantes de medicina são mais suscetíveis à exaustão do que seus colegas que fazem outros cursos.

São muitos estudantes de medicina que estão sucumbindo às pressões durante o curso. Na residência médica, isso piora com os feedbacks insatisfatórios dos preceptores, juntamente com as atitudes hostis durante a residência, fatores que têm aumentam do esgotamento e até ideação suicida.

Finalmente, é bom lembrar que se o bem-estar dos futuros profissionais estiver em risco, a qualidade do futuro atendimento ao paciente estará em risco também. Para produzir médicos de sucesso, é necessário cuidar do esgotamento nos estágios iniciais do treinamento. A abordagem imediata do esgotamento dos estudantes de medicina é essencial para evitar a depressão, a ansiedade e a insônia que os alunos costumam experimentar.


Rossandro Klinjey é palestrante, escritor, Psicólogo Clinico e Mestre em saúde coletiva. Fenômeno nas redes sociais, seus vídeos já alcançaram a marca de mais de cem milhões de visualizações. Autor de vários livros, sendo os mais recentes: “As cinco faces do Perdão”, “Help: me eduque!” e “Eu escolho ser feliz”. É consultor da Rede Globo em temas relacionados ao comportamento, educação e família, no programa “Encontro com Fátima Bernardes” e colunista da Rádio CBN. Foi professor universitário por mais de dez anos, hoje se dedica a palestras no Brasil, Europa e Estados Unidos.